Sacada Verde

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Ela vivia ali há 50 anos. Acordando todos os dias para a mesma sacada apertadinha, cercada de verde e rosa por causa das flores de Maio e samambaias penduras. O canário só se fazia notar pelo canto alegre todas as manhãs.

Vila Bonita havia sido seu lar desde o começo, mesmo saindo da casa dos pais, aquelas ruas sempre foram seu conforto, o que ela conhecia.

O sofá antigo e bege trazia um perfume único e uma mancha de café no braço direito que ela tentou apagar de inúmeras maneiras até que desistiu e agora fazia parte da decoração. O tapete que uma vez encheu o chão do lugar de cor, agora estava enrolado e posto de lado, e a mesa de centro que o prendia ao solo carrega caixas e mais caixas de lembranças. Algumas ela abre e outras ela jamais mexeria novamente.

Estava partindo, irá morar no Alto do Ipiranga. Seria possível após uma vida toda recomeçar em outro lugar? Ela tem medo, mas sabe que é para melhor. O prédio em que mora já tem mais que cinquenta anos e não foi tombado como patrimônio histórico, como era sua esperança. Talvez, ela pensou, não o achem tão bonito como eu acho, não o amem como eu amo. Mas também somente tendo vivido uma vida ali para amar aquele lugar, somente quem conheceu os dias de ouro dali que saberiam encontrar algum sentimento bom por ele.

E ela viveu isso. Ela viu o sol começar a despontar pelas samambaias por volta das oito da manhã, viu também as chuvas que incomodaram seu canário quando esqueceu de coloca-lo para dentro. Ela viu as crianças correrem lá  embaixo quando chegavam as férias, viu as luzes de Natal enfeitarem a rua e viu o ano acabar e outro começar. Viu tudo isso do seu apartamento, do seu lar.

Então, como sair dali? O Natais são iguais no Alto do Ipiranga? Seriam as manhãs tão ensolaradas como as de Vila Bonita? Mas mesmo ela vai, ela vai e deixa para trás a mancha de café, o tapete colorido, as samambaias e as flores de Maio.

Mas antes de ir, ela se senta no sofá manchado e escuta o canário cantar. O sol começa a se pôr lá pelas cinco e meia e o céu fica alaranjado. Seu peito se enche de amor e saudades. Dá uma última olhada pela sacada e fecha os olhos, tentando gravar para sempre a vista e a vida do apartamento de sacada verde de Vila Bonita.

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